terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tholis - "sonhos"

Sahd acorda ofegante... dos seu olhos castanhos saem lágrimas confusas de um sonho que se repete há mil e uma noites.
O jantar de ontem foi para esquecer...
O Siha e a Sen acabaram por aparecer, cheios de surpresas, de super-planos e viagens exóticas, e isso tornou tudo ainda mais difícil.
Ninguém se lembrou daquela data mágica, do verdadeiro porquê daquela inesperada reunião de amigos, apenas Sahd se revia constantemente naquela sobremesa predilecta do seu amor perdido.
Tinham passado quase 3 anos e já ninguém sentia a sua falta.
Pensamentos egoistas como estes têm marcado os dias com a inconfundível cor do desespero, e a esperança tem vindo a ser devorada pela loucura.
O sonho que agora a faz chorar está prestes a tornar-se realidade.
Está realmente alguém a tocar à campainha... provavelmente já hà algum tempo... tanta insistência significa que é alguém conhecido,e depois de ontem Sahd já não quer voltar a sair da cama.
Passaram 15 longos minutos e finalmente desistiram.
Sahd voltou a adormecer, com a almofada a tapar-lhe a cabeça. Lá fora começou a chover.

7 anos antes

(televisão) " maldita sea cariño, cuantas veces te he dicho que no hay forma de pintar la..."

(telefone) "Ring Ring"

(Sahd) - Loow! Atende tu! deve ser a Sen outra vez... ela disse que voltava a ligar...

O telefone toca mas Loow está deitado no chão, inconsciente, com o sangue a sair espesso pela narina esquerda e com os olhos fixos, semi-abertos...
a sua mão direita é a única parte do corpo que lhe responde mas mesmo assim revela-se inútil e impotente, incapaz de, sozinho, fazer um sinal, um
barulho que ultrapasse o chão do quarto, atravesse o corredor, entre pela porta semi-aberta da casa de banho e revele à despreocupada Sahd o incompreensível momento pelo que está a passar.
Não percebe a rapidez com que ficou naquele estado, não consegue pensar como dantes; a realidade parece-se agora a um sonho no qual é impossível concentrar-se, e em que as formas, as cores e os sons se distorcem até limites agonizantes.
A vontade de Loow apaga-se e perde-se na escuridão.
Sahd já não ouve o telefone e imagina Loow e Sen ao telefone enquanto espera sentada na banheira esses 10 minutos de que falam na embalagem do
novo amaciador.
Na televisão interrompem o filme para um "especial terrorismo"; desta vez enganaram-se e rebentaram com um antigo armazém de brinquedos abandonado.
Incrível coincidência, pois foi aí que Sahd e Loow se conheceram 3 anos antes, numa feira de "brinquedos dos anos 50".

10 anos antes

Era meio-dia do segundo sábado de junho; o vai-e-vém Slowvaky tinha acabado de entrar na órbita de Saturnino e podiam ver-se em directo as primeiras
imagens dos 9 anéis.
Numa pequena ilha do Pacífico Azul o homem mais velho da aldeia mais pequena do mundo pescava o maior peixe da sua vida e um amor à primeira vista
acontecia numa realidade muito diferente, no pequeno stand do Big Joee, na 9ª edição da "Toys From The 50's".
Ele procurava a colecção completa de uma revista underground que relatavam as ligações do 3º Reich ao acidente de Roswell e a influência dos alienígenas
na 2ª Guerra Mundial.
Ela deliciava-se com dois palhaços de corda siameses.
Uma breve troca de olhares parece inexplicavelmente produzir uma sobrecarga eléctrica e a feira fica às escuras. Apenas as luzes laranja de emergência
deixam entrever dois timidos sorrisos. Ele acabou por desistir das revistas e ela esqueceu-se de pagar os palhaços.

12:00, actualidade

Sahd acorda com a enorme tempestade que se começa a revelar assustadora.
Vira-se para cima na cama e já não se lembra do que estava a sonhar.
Tapa-se até ao nariz e liga o sistema de vídeo externo da casa com o comando que dormiu com ela naquela cama demasiado grande.
No painel por cima dela pode-se ver uma panorâmica da cidade e o barómetro não pára de oscilar.
Sahd muda de camara para se certificar de que a água da piscina não inunda o jardim. Para já tudo parece ok e deixa-se levar por esse sono constante e preguiçoso.

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